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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

E AÍ, O QUE VAI SER?

     Aí que não sou eu quem vai responder. Aí que o nosso barco está parado em águas rasas, quando foi você quem me pediu pra subir as velas. Aí que não tem mais vento e foi você quem surgiu quando meu vento acabou e trouxe um resto de ilusão pra dentro do meu porto. Aí que não tem mais porto, só um barco à deriva de você. E aí...
     Aí não tenho mais força pra tentar injetar qualquer esperança nas minhas veias, porque fiquei fraco de repente, mesmo fingindo saúde boa e coração forte. E aí suguei pra dentro de mim cada brisa fresca que partiu de seu hálito cheio de esperança e juventude. Aí não consegui dormir, porque sua energia tomou todo o meu ser e me jogou no alto, cheio da adrenalina brilhante que cegou minha vista. Aí veio aquele movimento forte dentro de mim, uma ilusão de que os ventos chegariam e de que valeria realmente a pena lançar-me a este mar infinito. Um mar cheio de possibilidades pra quem só virou marinheiro em alto mar... Aí eu saí correndo, fingi ter asas, entrei no barco e terminei sozinho: sem a força do vento, sem coragem, sem qualquer indício antigo de que isso realmente valeria a pena...
    E aí? Seu pedido não me interessa. Sua ligação voltando atrás tão rápido, suas frases seguindo meus conselhos menos sinceros, seu riso nervoso. Nada disso me interessa como eu fingi parecer.
     Não dá pra ser somente amigo. Não dá pra esquecer que ainda ouço outro coração batendo, quase aqui dentro, chacoalhando meu peito de olhos arregalados enquanto você adormece tranquilo, inconsequente como quase toda juventude. Lamento, mas cá estou novamente, quebrando a cara em mais um salto imenso, esquecendo que aos poucos isso tudo poderia ir ficando pra trás, sem tanto sofrimento. Lamento que tenha sido tão intenso a ponto de me movimentar. Lamento se agora me faz sentir que era só um desejo inconsciente de que eu pulasse no barco afinal. Lamento que agora eu não tenha mais força nenhuma. Lamento pensar que você não vai mais me levantar como me tirou do chão na luta mais difícil ou como enxugou minhas lágrimas ouvindo Poema. Lamento se eu ainda espero e se você insiste em telefonar e falar mil coisas querendo dizer apenas: estou acabando aos poucos pra você não sofrer de uma vez...
     Lamento, mas se esforça pra ler até o fim e entender tudo que eu só planejei porque foi você quem pediu. Se esforça pra deixar a louça na pia e lembrar que eu lavei sozinho, vários dias depois, pra não ter que relembrar tudo que a gente fez junto naquela cozinha. Se esforça pra imaginar como ficou tudo aqui dentro, a bagunça que a gente fez e eu agora estou organizando. Se esforça, uma vez mais, e imagina o cheiro bom de limpeza que só durou o primeiro dia, porque depois era só cheiro de sabonete e um sono tranquilo...
     Lamento se segui seus conselhos, lamento se eu tentei ser mais romântico, lamento se baixei o volume, lamento se meu discurso sobre a complexidade do amor durou só o primeiro dia...
     E por fim, me desculpe: era eu quem deveria tomar o controle de tudo, deixar a louça na pia, trancar a casa, usar o mesmo perfume com outras pessoas, mandar menos notícias e ir fazendo o jogo que as pessoas inventaram pra sofrer da maneira correta...
     Mas eu lamento imensamente se não sou desse tipo e juro... juro que desta vez vou entender o recado e vou dormir sem te encher com aquele 'boa noite' que eu mesmo usava pra receber de volta meu sono tranquilo...
     


Sebastião Salgado

Oswaldo Juliano Sandi

domingo, 11 de março de 2012

ENVERGANDO...

Primeiro sempre vêm as palavras. Elas vêm aos poucos. Como todas as outras tidas como tão insignificantes. As palavras formam um tecido. Elas montam uma história. Uma rede. Nos prendem. Nos transformam.
Foi por meio das palavras que buscamos as imagens. Nós na tela. Presos. Entrelaçados pela força desumana do "amor" - assim mesmo, com aspas. Porque esta é uma palavra pequena demais e despretensiosa demais para nomear algo que nunca entenderemos ao certo. Algo que explode num segundo e também termina num segundo...
Estiquei meu braço. Toquei a tela. Toquei a câmera. Mas não encontrei mais nada. Nem seu rosto, nem a temperatura da pele, nem seus lábios. Só a superfície fria...
Quando nos ouvimos, as palavras vinham atrasadas. E se chocavam no nada. E ficamos confusos com a confusão das palavras. E veio o silêncio.
Semana de silêncio.
Dias de silêncio.
Horas de silêncio.
Minutos de silêncio.
E veio a verdade. Junto com toda a injustiça da distância. A verdade é dura e triste. A verdade nos despe e nos joga num frio glacial insuportável. A tua verdade disparou meu coração assim como tua voz no princípio.
Se eu fosse um soldado, teria caído, inerte, com uma lança no peito. Tua verdade doeu e ainda dói. Queria que tudo isso - a inconstância do amor - fosse forte o bastante e valesse mais do que a esperança que você construiu noutro caminho... mas não é, já disse: é inconstante...
Por fim, só resta mesmo um pouquinho de gratidão e dor de cotovelo misturadas: obrigado por ter sido uma coisa boa na minha vida quando ela ia mal. E obrigado por me ensinar mais uma vez a lição que o mundo tenta me ensinar: a ser forte sozinho. A envergar no máximo... sem me quebrar...







Oswaldo Juliano Sandi