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sexta-feira, 24 de abril de 2015

SOBRE A SUBSTÂNCIA VERDADEIRA

— Gosto muito de você... — Sim, a essa altura já é uma confissão.
— Eu deveria ter avisado no início que não é isso que eu busco... assim você não se apegaria...


Foi aí que o rio que corria livre dentro de mim parou... Que tipo de sociedade produz esse tipo de gente que acha que gostar é opção? Que tipo de sujeitos deixam o rio correr livre por um ou dois meses e depois anuncia: "Não era isso que eu estava querendo! Esqueci de avisar..."
Não sou o tipo que conserta pontes, ou que trabalha com reparos... Não sou o tipo que tem essa facilidade toda com este trabalho. Infelizmente mesmo, sou do tipo oito ou oitenta e estou bastante deslocado em relação a esse tipo de gente que cresce nessa sociedade doente.
— Não quero a superficialidade inesquecível. Quero a substância verdadeira!
Será que é tão difícil entender pra onde essa água está correndo? Será mesmo que essa seletividade capitalista para amar é tão cômoda a ponto de cegar-se à superficialidade solta e sem conteúdo?
Não sei, só sei do que digo sempre: estou exausto... A cada passo mais exausto... Mais cansado, voltando às reticências que lutam pra terminar as frases... e até um pouco duro demais.

E o problema é mesmo este, não dá pra tratar essa afetividade doente sem a mão firme, sem calçar as botas pesadas pra andar na camada fina de gelo, coragem essa que só será capaz de ferir aqueles que terão coragem — paradigma inútil dos que tem um coração...


Oswaldo Juliano Sandi

domingo, 11 de março de 2012

ENVERGANDO...

Primeiro sempre vêm as palavras. Elas vêm aos poucos. Como todas as outras tidas como tão insignificantes. As palavras formam um tecido. Elas montam uma história. Uma rede. Nos prendem. Nos transformam.
Foi por meio das palavras que buscamos as imagens. Nós na tela. Presos. Entrelaçados pela força desumana do "amor" - assim mesmo, com aspas. Porque esta é uma palavra pequena demais e despretensiosa demais para nomear algo que nunca entenderemos ao certo. Algo que explode num segundo e também termina num segundo...
Estiquei meu braço. Toquei a tela. Toquei a câmera. Mas não encontrei mais nada. Nem seu rosto, nem a temperatura da pele, nem seus lábios. Só a superfície fria...
Quando nos ouvimos, as palavras vinham atrasadas. E se chocavam no nada. E ficamos confusos com a confusão das palavras. E veio o silêncio.
Semana de silêncio.
Dias de silêncio.
Horas de silêncio.
Minutos de silêncio.
E veio a verdade. Junto com toda a injustiça da distância. A verdade é dura e triste. A verdade nos despe e nos joga num frio glacial insuportável. A tua verdade disparou meu coração assim como tua voz no princípio.
Se eu fosse um soldado, teria caído, inerte, com uma lança no peito. Tua verdade doeu e ainda dói. Queria que tudo isso - a inconstância do amor - fosse forte o bastante e valesse mais do que a esperança que você construiu noutro caminho... mas não é, já disse: é inconstante...
Por fim, só resta mesmo um pouquinho de gratidão e dor de cotovelo misturadas: obrigado por ter sido uma coisa boa na minha vida quando ela ia mal. E obrigado por me ensinar mais uma vez a lição que o mundo tenta me ensinar: a ser forte sozinho. A envergar no máximo... sem me quebrar...







Oswaldo Juliano Sandi

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

TRISTE DE VERDADE

Algumas palavras que são ditas machucam.
Se são ditas por quem amamos, machucam muito mais.
Talvez seja porque estejam encharcadas de verdade.

Ah, a verdade! Ela nos atinge em cheio...

A verdade é o único peso horizontal.
E nos derruba.
Gravidade defeituosa, dor em forma corretiva.
Ela tira facilmente um sorriso de nosso rosto e nos joga com força na tristeza.
Ou em nossa miséria, que tentamos vencer sem sucesso, diariamente.

Quando disser o que pensas de mim, por favor, enfeita um pouco a tua verdade, para que ela não derrube, com um nocaute, a minha ilusão chamada verdade minha...





Oswaldo Juliano Sandi