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quarta-feira, 21 de outubro de 2020

MEU AMANHÃ



Não sei descrever como você chegou. Ninguém tinha tanta expectativa por aqui, não é mesmo? Mas como num encontro de almas a gente grudou. Tipo cola, tipo criança que precisa de abrigo. Não sei explicar até agora — quatro meses depois e contando. Não sei nem mensurar a grandiosidade da nossa ligação. São flashes infinitos, lembranças hiperbolizantes. A gente encosta e a ferida cura... 
Não precisei pedir permissão pra estender minha alma na tua grama verde e macia. Não tive vergonha de deitar no teu peito e encarar a grandiosidade do céu. Quanta luz! Coisa bem de outro mundo, que nem dentro de um templo eu conseguiria sentir. As nuvens passando no jogo de cores do fim da tarde, no alto da serra, quase me abraçaram. Em delírio, sentindo que os bons ventos chegavam, sussurrei: "Obrigado, universo". E ainda reluzente, sussurro até hoje: "MUITO OBRIGADO, UNIVERSO!" E todo dia em que a tristeza volta e repousa ao meu lado, eu me repito: "Agradece, por favor, agradece, porque você passou uma vida orando ou pedindo por tudo isso que tem hoje."
Não sei de onde a gente tirou tanta certeza, mas no meio de um ano turbulento, a empatia veio correndo, cavalgando no topo de todo o caos, pegou minha mão, juntou à sua e falou pra gente bem baixinho: "Se cuidem, arrumem um cachorrinho, dividam os dias, porque vocês merecem."
Confesso que às vezes eu duvido, me saboto, me pergunto o que fiz pra merecer uma dádiva tão grande... mas a realidade é que a gente sabe... a gente sabe com detalhe, e até um pinguinho de tristeza, que a gente merece pra valer. A gente sabe cada espinho que pisou (mesmo quando não entendia direito a dor do mundo) e o incômodo de curar cada ferida. A gente se olha, se abraça, dá um beijo nas cicatrizes e eu sigo prometendo pro universo: "Pode deixar, vou fazer valer umas tantas décadas igualzinho fui feliz esses quatro meses..."

Oswaldo Juliano Sandi

terça-feira, 23 de outubro de 2018

SOLO SAGRADO


   Você bateu à minha porta tarde da noite pedindo ajuda e eu atendi, porque queria me sentir bem em servir ao outro. Você chorou pelas dificuldades da vida, pois estava difícil recomeçar, e eu sussurrei em seu ouvido toda a força que eu enxergava no fundo de seus olhos, no seu íntimo. Você entrou no solo sagrado do meu coração sem tirar os sapatos e eu deixei, porque você vinha de muito longe e trazia seus costumes. Você puxou uma cadeira, sentou-se à mesa ainda desarrumada, e eu novamente deixei, porque queria dar alento ao seu coração cansado.
   Você comeu do meu alimento sem lavar as mãos e eu deixei, porque queria valorizar a sua visita. A louça ficou toda espalhada. Eu não liguei, porque de vez em quando me dou esse direito de deixar a louça suja na pia. E você nem terminou de comer o que serviu, porque não gostou muito do tempero. Deixei que você reclamasse um pouco sobre como eu preparava o alimento e sobre como eu era inexperiente em tantas coisas, porque queria aprender a ser melhor, a fim de te oferecer o meu melhor. Você pegou algumas cobertas no alto do guarda-roupa, derrubou algumas coisas pelo chão e deitou-se em minha cama, reclamando do meu colchão. Sim, de novo eu permiti, porque eu queria te dar o conforto do meu abrigo e te oferecer tudo o que eu tinha de melhor nesse espaço. Pela manhã, você se levantou meio irritado e me perguntou qual era a minha dificuldade em voltar as coisas pro lugar. Deixei que falasse dessa forma, porque, pensei, sua alma estava cansada e tinha os seus motivos e problemas.
   Depois que organizei o café, você tinha uma notícia para dar: estava indo embora, porque conseguiu um bom lugar pra ficar... Apesar de tudo, segurei firme sua mão e pedi, com minha grande devoção: "Fica aqui comigo". Mas você não quis, disse que não lhe fazia bem estar dentro do meu coração imperfeito.
   Depois que saiu pela porta, as mensagens acabaram, você já estava forte de novo e não precisava de mais ninguém pra te contar tudo de que era capaz.
   Agora estou aqui sozinho: sonolento, sentado no chão sujo, casa desarrumada, louça na pia, comida estragada, quarto bagunçado... Derramei tudo de bom que eu tinha em mim na espiral da sua estima desorientada. Você se levantou. Eu estou em queda livre.
Solo profanado. Coração em pedaços...





Oswaldo Juliano Sandi

sábado, 29 de setembro de 2018

BOA VIAGEM

Revenant - Odin Sphere

      Em um desses jogos, que me distraem um pouco a cabeça, existem fantasmas que foram condenados pela rainha Odette a vagar pela eternidade no mundo dos mortos carregando um candelabro e levando alguma luz para toda aquela escuridão. Esqueletos arcados pelo peso das velas, esses seres cumprem sua missão, com o olhar literalmente vazio em suas caveiras.
      Entre os meus devaneios queria descobrir quem é essa rainha ou deusa da vida real, que faz uma mágica e, num piscar de olhos, me vejo envolto nesse encantamento eficaz que é gostar de alguém e apaixonar-me.
      Amar dói. Já ouvi dizer inúmeras vezes e das mais diversas formas: nos filmes, nas músicas, nas histórias desiludidas que existem aos montes por aí. Mas meu problema começa bem antes, quando descubro esse mundo novo que é estar cara a cara com o outro, imagem espelhada de mim, cheia de suas mazelas e outros encantamentos.
      Como uma mágica ou, melhor dizendo, como uma maldição, logo que a porta se fecha atrás de você, me sinto em queda livre, torcendo para que a semana voe e para que mais um dia livre te traga de volta até mim. Insegurança, dependência, exagero, ansiedade, biomedicina... Não sei, já me falaram muitas coisas a respeito de como me sinto e, na real, cansei de buscar qualquer explicação plausível a essa dor intensa que a tua ausência me causa.

*****

      Na hora de ir embora as luzes estavam todas acesas. Ambos carregaram as malas até o carro e ajeitaram toda a bagagem, iluminados pelo olhar do cachorrinho já sentado no banco da frente, pronto para voltar pra casa. Não houve beijo de despedida. O carro partiu, virou a esquina e retornou para pegar a avenida principal. Aquele que ficou trancou logo o portão, subiu rápido as escadas, fechou a porta e foi apoiar-se atento na janela que dava para a avenida. O carro passou no mesmo instante. O som dos pneus nos paralelepípedos e as luzes do carro diminuíram conforme a noite foi engolindo aquela imagem. "Boa viagem", ele pensou, com o olhar vazio no horizonte. "Mas que bobagem, o trajeto é curto, são poucos minutos de distância", era seu lado pragmático lutando mais uma vez. No seu íntimo, ou no seu coração — porque é um pensamento irracional — ouviu a voz altercada novamente: "Boa viagem."
      Depois da partida, fechou as cortinas, correu toda a casa apagando as luzes e fechando as portas. No escuro da noite, em seu 'mundo dos mortos' particular e cheio de fantasmas, pegou com cuidado o candelabro e saiu a vagar nas sendas de sua mente, missionando sua paixão, que era a luz que acendia as velas que carregava cegamente.




Oswaldo Juliano Sandi

domingo, 15 de outubro de 2017

DESCONGELAR



Depois que você foi embora e quebrou o acordo que você mesmo inventou, passei alguns dias sem olhar de verdade pra dentro da geladeira. Logo naquela semana eu descongelei tudo e tirei o excesso de água, mas foi só.
Deixei tudo lá dentro do mesmo jeito, as coisas que você comprou começaram a estragar lentamente. Teus ingredientes mágicos que já não me servem de nada agora estão por um fio: entre o lixo e o desperdício, conforme você fez com a gente. Só que a gente já tinha acabado faz tempo — isso foi o que você disse sem nenhum sabor agradável.
Eu poderia muito bem acordar no meio de um pesadelo durante a madrugada e assaltar essa geladeira cheia de sobras. Eu poderia perder a memória e voltar ali com toda a fome que minha alma sente agora e morrer envenenado pelas coisas que eu deixei escondidas até ter essa força que tive hoje.
Hoje sim, depois de duas semanas, eu consegui avaliar o estrago. Olhar todos os ingredientes deteriorados ali dentro, tirar um por um, olhar pra eles à luz mais clara, sentir seu cheiro — sentir o cheiro daqueles seus malditos temperos na medida certa. Minha vontade era esquecer tudo que foi bom, porque eu não aprendi nada com essa história. Só fiquei pior. Me tornei uma pessoa pior e sem qualquer indício de fé nessas coisas que a gente debateu tanto...
Minha vontade — de verdade — era jogar tudo fora. Chamar um caminhão de lixo e mandar levar qualquer vestígio que você tenha chegado a tocar nessa casa. Talvez demolir tudo. Demolir a energia que ainda vaga em alguns cantos e eu ainda estou tentando apagar. Destruir cada quadro que antes tinha mil cores e agora é só uma lembrança em preto e branco, lembrança falsa e desgastada pelas palavras que vieram depois.
Com as coisas é tudo muito simples. Você tira todo o lixo pra fora e levam pra apodrecer num lugar distante.
Queria mesmo era isso... Tirar pra fora tudo que ainda tem dentro de mim e mandar embora junto com o lixo amanhã de manhã. Quem sabe assim, outras coisas ocupariam este espaço...




Oswaldo Juliano Sandi

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

TEU SIGNO

"Não acredito mais em signos". Vinha pensando todos esses dias: "Não acredito mais em signos e agora sou do contra — só acredito em física quântica..."
Tá ok, foi também por esses dias que você apareceu. Eu estava aqui firme, me repetindo essa coisa não tão cética — posso ver agora — de física sei lá o quê. Você chegou com seu perfume conhecido e seus vícios expostos. Sem sangue, porque não eram feridas frescas, mas muito bem expostas, com segurança excessiva, porque entraram de primeira pelas minhas narinas e pela minha boca seca. Meus dedos sentiram cada vício exposto e insistiram em ti, por  excesso de ignorância. Como sempre, nosso tempo era curto e o caminho longo demais para nós dois. Coloquei uma bela venda e fui...
Você fala muito, e sabe muito bem disso, passa tanta segurança no primeiro contato! Tudo que eu queria era deitar no seu colo e pedir a força que estou precisando por esses dias, era só isso que eu pensava naquela hora: me leva pro teu mundo, me dá uma carapaça como a sua. 
Eu falo pouco — e me esforço, claro. Abri uma cerveja pra sentir a segurança que não tinha. Vejo beleza em tudo, me desculpe. Lembro agora como você não curtia tanto elogio e se esquivava do meu olho curioso e duvidoso caçando feiura em tudo, sem sucesso.
Gêmeos. Lembro bem quando perguntei. Você nesse bla bla bla, quase não ouvia o pouco que eu falava, mas eu estava amando isso, porque vejo tão pouco disso hoje em dia... Sim, gêmeos. Com um belo ascendente em falar demais. Na hora senti um flash de luz piscando, falhando minha física quântica e meu ego fortificado. Naquele instante de escuridão, dei um grito comigo mesmo: "muda de assunto!" Fui pra outro canto da conversa, que você não botou fé, eu vi de cara que seu signo tinha falado alto no preto da minha escuridão. Me desculpe.
Nova entrega — mesmos papéis. Caí direitinho e mais uma vez. Só que você não se conformou com a torneira do banheiro que ficava só pingando e me fez mudar o hábito. Logo cedo lembro disso todos os dias... Contei horas, dormi pouco, apaguei algumas contas da web, pensei alto, sonhei grande, e no final, mais uma partida, mais um descontrole, mais uma depressão... mais uma intuição...
Deu tudo isso no meu mapa. Deu aversão ao sonho e ao pé no chão, aversão ao branco e ao preto, aversão ao tempo que se espera por nada... por qualquer migalha, como sempre. Ou uma notificação no celular que não diz coisa nenhuma.
Intuição. Pensei comigo. Sempre me achei horrível nisso. Mas o tempo todo venho acertando esses devaneios perdidos.
Você sabe quanto tempo demorou pro seu perfume sair de casa? Eu também não sei. Mas desconfio que foi bem mais do que o meu relógio pôde contar. Tem aquela coisa. Você se acostuma ao cheiro da vida. Ficar dentro de casa é melhor do que sair e bater de frente com seu perfume quando destranco a porta.
Não aguento mais. Não vou sair por esses dias.
Vou passar o feriado na cama, vou ocultar suas conversas, vou formatar o cartão de memória... Talvez seja assim mesmo — igualzinho das outras vezes — que eu vou conseguir esquecer mais uma vez o quanto lutei com meu sono quando ele estava por aqui...







Oswaldo Juliano Sandi

quarta-feira, 29 de março de 2017

ILUSÃO AO CONTRÁRIO

"Uma vez eu tive uma ilusão e não soube o que fazer, não soube o que fazer..."

A música entra na playlist de repente e traz de volta aquilo que eu queria deixar pra trás. Daí paro e lembro todos os conselhos ouvidos e que pensei desta vez que eram uma viagem da sociedade líquida...
Pela primeira vez me vi tentando iludir-me, tentando acreditar na história que logo estaria se desfazendo.
"Quem quer dá um jeito!" "Para bom entendedor, um online sem resposta, basta!" "Veja as fotos..." "Há silêncios que dizem tudo e palavras que dizem nada..."
Citações e conselhos aparecem aos montes... Ah, e tem as músicas e as pessoas perguntando o que houve. Parece um caso que não tem mais fim e um certo mau gosto musical...
Entrei nisso acreditando que não era pra ser você. Com tanta insistência, minha cabeça fraca fez algo inédito e ao contrário: fui cético de início e iludido depois. Sempre fui da ingenuidade inicial, mas doesse a quem doesse, desta vez seria cético e chato. Só ia acreditar quando tivesse estrutura pra isso. E a ilusão veio rapidinho e construiu uma estrutura de areia, tal qual as que eu construía, mas esta era bem diferente das minhas, era feita por outras mãos. Daí pra frente foi fácil, fiz todo o meu edifício. Mas tão rápido quanto construí, você voltou me dizendo que não colocasse nem mais um cômodo... a obra estava interditada. Primeiro era uma ou outra manhã corrida e sem contato, depois vieram dias, semanas...
Surpreso? Só fiquei porque foi muito rápido. Mas isso não foi  surpresa nenhuma quando olho agora. Sabia que tinha alguma coisa nos bastidores desta obra, mas melhor calar e esperar.
Hoje é fácil perceber todas as impossibilidades... e, quer saber? Só tive uma certeza martelando minha cabeça o tempo todo:

Desde o início eu sabia que não era pra ser você...
Sinta-se livre!





Oswaldo Juliano Sandi

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

E AÍ, O QUE VAI SER?

     Aí que não sou eu quem vai responder. Aí que o nosso barco está parado em águas rasas, quando foi você quem me pediu pra subir as velas. Aí que não tem mais vento e foi você quem surgiu quando meu vento acabou e trouxe um resto de ilusão pra dentro do meu porto. Aí que não tem mais porto, só um barco à deriva de você. E aí...
     Aí não tenho mais força pra tentar injetar qualquer esperança nas minhas veias, porque fiquei fraco de repente, mesmo fingindo saúde boa e coração forte. E aí suguei pra dentro de mim cada brisa fresca que partiu de seu hálito cheio de esperança e juventude. Aí não consegui dormir, porque sua energia tomou todo o meu ser e me jogou no alto, cheio da adrenalina brilhante que cegou minha vista. Aí veio aquele movimento forte dentro de mim, uma ilusão de que os ventos chegariam e de que valeria realmente a pena lançar-me a este mar infinito. Um mar cheio de possibilidades pra quem só virou marinheiro em alto mar... Aí eu saí correndo, fingi ter asas, entrei no barco e terminei sozinho: sem a força do vento, sem coragem, sem qualquer indício antigo de que isso realmente valeria a pena...
    E aí? Seu pedido não me interessa. Sua ligação voltando atrás tão rápido, suas frases seguindo meus conselhos menos sinceros, seu riso nervoso. Nada disso me interessa como eu fingi parecer.
     Não dá pra ser somente amigo. Não dá pra esquecer que ainda ouço outro coração batendo, quase aqui dentro, chacoalhando meu peito de olhos arregalados enquanto você adormece tranquilo, inconsequente como quase toda juventude. Lamento, mas cá estou novamente, quebrando a cara em mais um salto imenso, esquecendo que aos poucos isso tudo poderia ir ficando pra trás, sem tanto sofrimento. Lamento que tenha sido tão intenso a ponto de me movimentar. Lamento se agora me faz sentir que era só um desejo inconsciente de que eu pulasse no barco afinal. Lamento que agora eu não tenha mais força nenhuma. Lamento pensar que você não vai mais me levantar como me tirou do chão na luta mais difícil ou como enxugou minhas lágrimas ouvindo Poema. Lamento se eu ainda espero e se você insiste em telefonar e falar mil coisas querendo dizer apenas: estou acabando aos poucos pra você não sofrer de uma vez...
     Lamento, mas se esforça pra ler até o fim e entender tudo que eu só planejei porque foi você quem pediu. Se esforça pra deixar a louça na pia e lembrar que eu lavei sozinho, vários dias depois, pra não ter que relembrar tudo que a gente fez junto naquela cozinha. Se esforça pra imaginar como ficou tudo aqui dentro, a bagunça que a gente fez e eu agora estou organizando. Se esforça, uma vez mais, e imagina o cheiro bom de limpeza que só durou o primeiro dia, porque depois era só cheiro de sabonete e um sono tranquilo...
     Lamento se segui seus conselhos, lamento se eu tentei ser mais romântico, lamento se baixei o volume, lamento se meu discurso sobre a complexidade do amor durou só o primeiro dia...
     E por fim, me desculpe: era eu quem deveria tomar o controle de tudo, deixar a louça na pia, trancar a casa, usar o mesmo perfume com outras pessoas, mandar menos notícias e ir fazendo o jogo que as pessoas inventaram pra sofrer da maneira correta...
     Mas eu lamento imensamente se não sou desse tipo e juro... juro que desta vez vou entender o recado e vou dormir sem te encher com aquele 'boa noite' que eu mesmo usava pra receber de volta meu sono tranquilo...
     


Sebastião Salgado

Oswaldo Juliano Sandi

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O SEGUNDO SONHO

Nem todos os sonhos são fáceis de decifrar. Nem todos são fáceis de recordar.
A madrugada chuvosa troveja lá fora. O vento balança as cortinas nas janelas abertas. A chuva só vem forte quando o calor está ficando insuportável.
No meu sonho, o parque está aberto. Existem pessoas trabalhando, mas as nuvens carregadas no céu entristecem os brinquedos. Sinto vontade de subir bem alto na roda gigante, mas o ânimo do maquinista me desanima. Então me pergunto por que estou ali sozinho...
Vejo poucas pessoas passando, vejo poucas crianças brincando. Sigo alguns por uma passarela até um grande prédio de dois andares em forma de circo. Ele está praticamente lotado. Há mesas espalhadas por todo canto. Caminho em seu interior e observo as pessoas com um humor um pouco melhor, escondidas da instabilidade das nuvens.
Subo as escadas em semi-círculo, encontro corredores também circulares, de janelas pequenas, que em dias de sol poderiam me trazer alguma luz. Vejo as pessoas fazendo fotografias e conversando sobre a tempestade que se forma. Como uma célula na corrente sanguínea sinto-me passar por estes corredores sem me prender a ninguém, sinto-me sem qualquer objetivo, sequer carrego algum oxigênio. A vida se esvai...
Quando volto ao andar térreo, em busca de uma mesa vazia, vejo você entrando. Uma imagem viva, camiseta amarela, e uma aura que se predispôs a competir com o sol quando ele resolveu se esconder logo de manhã. Sim, você não me ignora. Você tem esse dom desde o início: de se fazer notar, de causar qualquer sensação, de imprimir alguma folha, nem que seja de teste, como a maçã vermelha e brilhante que testa as cores com tinta úmida e cheirosa.
Você vem, para na minha frente e me convida pra tomar alguma coisa. Claro que vou, afinal era por ali mesmo que eu estava indo. Era pra fingir que era normal como todos os outros com alguma sorte talvez estivessem também fingindo. Ah, claro, eu e o meu gosto por tragédias...
Nos sentamos e conversamos. É claro que o assunto logo volta ao passado, em época de luz e sol, muito antes do tempo obscuro que veio logo depois. Essa foi a mesma luz que me cegou, a sua luz. Um brilho resplandecente que não fui capaz de suportar por muito tempo. Da mesma forma, a minha escuridão também lhe incomoda. É como se na sua concepção inconsciente não pudesse haver no mundo escuridão capaz de competir com a sua luz. De repente é isso... Discutimos bastante por conta do orgulho... de nós dois... Você sai, diz que vai buscar mais alguma coisa. Eu corro pra algum lugar isolado pra respirar e decidir em dez minutos o que deveria ter sido decidido há dez segundos atrás, antes de você se levantar da mesa. Então, de volta à mesa, vejo o amarelo se misturar às cores da praça de alimentação e se neutralizar. Tudo volta a ser como estava antes de sua aparição. 
Espero como posso, mas sei que não voltará. Está seguro do que diz e do que já sentiu. Se sentiu. Não adianta procurar entre as pessoas, entre as cores, entre auras e mais auras. Corro por escadas e pessoas borradas pelo meu olhar fixo em algo que agora só existe na minha mente. Você não mais existe. Nem neste pesadelo estranho.
Acordo com o vento forte e o barulho da chuva que cai como chumbo, como fazia tempo não caía. A brisa refresca meu pensamento. Paro na janela, olhando para o nada, escuro  e embaçado de azul.
A vida segue turbulenta apesar dos pesadelos. Os sonhos seguem confusos, mais uma vez ofuscados pelo imprevisto. Daqui a pouco clareia, preciso levantar cedo e buscar alguma outra razão para existir.
É só quando me deito para tentar dormir de novo que percebo: o rosto não era seu, nem a roupa, nem o cabelo, nem a aura brilhante... Não te conhecia no sonho. Não era a mesma pessoa que me vem à mente aqui no barulho da chuva. Corri à procura de quem não conhecia de verdade. Sim, era apenas um sonho...
Depois de uma semana tentando decifrar a visão do meu inconsciente, chego à óbvia constatação:

Foi apenas um sonho...

E continuará sendo, até que eu me encarregue de viver e deixe de correr atrás do que não cheguei a conhecer de verdade...






Oswaldo Juliano Sandi

sábado, 19 de setembro de 2015

JANELA ARTIFICIAL

Pela janela artificial que se abriu quando cheguei a ilusão é fácil. Mas a noite cai depressa, vem as dores e o cansaço.
Chego cansado porque não é um caminho curto quando se quer estreitar corações. Chego cansado e não preciso explicar mais nada sobre isso, porque é só ler meus devaneios para entender este cansaço.
Encosto devagar, as pernas doem. Sigo exausto. Na janela que se busca, a paisagem se aproxima. Mas na janela artificial que me ofusca os olhos, quanto mais perto, mais longe o coração.
Quando olho pra cima, o céu estrelado sem luas. É porque sobra tempo dentro da minha ansiedade que logo percebo: este céu sem lua e com pouca claridade é artificial. Alguns astros já caíram...
E tantos astros caíram aqui, como no inconfidente céu de fábula que cumpriu um dia seu papel de verdade na minha curta felicidade. Sigo só...
E tão somente me arrasto uma vez mais, no tempo e no espaço, esperando justamente o que encontro: a receita perfeita de um frio coração artificial - líquido amargo e conhecido, difícil de engolir e de aceitar...




Oswaldo Juliano Sandi

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O CORAÇÃO E O CANTO DOS PÁSSAROS

“A estação mais quente está chegando”, tenho pensado nesses dias. A estação quente e minha casa abafada, as noites difíceis de dormir, as janelas sempre abertas e os insetos incomodando minha pele acordada. Sim, a estação mais quente aqui é a menos desejada.
Moro sozinho. Coração muitas vezes solitário e adoentado, mas persisto. Não ligo pra isso na maior parte do tempo – vez ou outra um fantasma pode ser um amigo. Cumpro com minhas atividades profissionais, estendo minhas noites de sono, porque existe sempre algum conforto em não sonhar acordado. Pagador de contas que sou, faço disso um jogo até que chegue ao xeque-mate.
E tem as relações. Algumas vezes calorosas, outras nem tanto. Aquelas que tocam o coração e aquelas que tocam apenas a pele. O problema dos relacionamentos é uma diabetes emocional crônica: é como o doente que sabe quanto é doce aquele quitute, mas muitas vezes tem que negar, porque lhe faz mal. Alguns doces têm me encantado. Dentre eles poucos têm feito o bem que deveriam e tem outros que chegam a intoxicar meu coração...
Saio pra rua no final da tarde, quando o expediente de quase todo mundo termina e o meu chega à metade. Saio pra rua para pagar as contas e cumprir obrigações. Saio pra rua... por obrigação muitas vezes... Caminho entre as pessoas de cabeça erguida, pois sei quem sou, mas meus olhos estão cegos, pois não quero encarar ninguém e ter o esforço de me explicar ou de falar coisas do meu cotidiano dolorido.
Saio pra rua e dou de cara contigo. Um olhar desconfiado, de quem não sabe nada da vida, como um cão que não sabe se late ou se morde. Pode ficar tranquilo, que eu não vou chegar mais perto. Vou apenas cruzar rapidamente o espaço que você usa pra se socializar. Enquanto passo, pode ficar ladrando por um segundo, mas eu vou sair do seu espaço tão rápido quanto meu coração começa a bater acelerado; vou fugir como o jorro de adrenalina que cai na minha rede sanguínea nesse exato momento em que digo “tudo bem?” querendo parar e ficar pra saber se está mesmo tudo bem, ou se você correria um mínimo risco de não estar bem sem mim. Mas eu sei a resposta e passo. Saio correndo do seu olhar de animalzinho problemático que toda pessoa mal resolvida tem e dá vontade de pegar pra cuidar – assumir o risco de aguentar os dolorosos dentes do orgulho e da teimosia que eu também já usei para machucar o outro. Passo por você como o espectro que sou pra qualquer outra pessoa...
De volta pra casa, você permanece no mesmo lugar, com seu círculo duvidoso de amizades que, fatidicamente, vai te trazer ao mesmo lugar definido, cravado no chão e resolvido, em que estou. A diferença? É que há duas distâncias infinitas entre estes dois mundos, cada uma com seu nome, e se chamam Tempo e Maturidade. A diferença cruel é que caberá a mim tomar a decisão de atravessar a rua e esconder meus olhos marejados entre as árvores insensíveis da praça, ouvindo o som ensurdecedor dos pássaros que cantam felizes ao final da tarde...




Oswaldo Juliano Sandi

segunda-feira, 2 de março de 2015

UMA NOVA PRIMAVERA...



Um ano novo completamente novo só começa depois do nosso ano novo pessoal. E que ano mais novo esse! Sem maldições nada antigas, sem aquela velha história de compensação.
Só sei que a esperança se renova e quando a gente enfrenta um grande inverno pessoal, chovendo lamentações, é aí que surgem as flores... e a primavera! De maneira sutil e quase imperceptível, de maneira quase insignificante, as flores jogam uma semente aqui e ali, as flores crescem aos poucos e 'bum!', cá está uma exuberante obra da natureza e da providência. E pior que não deu tempo nem de cuidar bem do jardim! Mas mãos à obra, meu coração! A flor mais bela não aguarda o jardim perfeito e, diferente das outras que já murcharam e secaram, a flor mais bela aguarda a oportunidade para a beleza, ela está espalhando seu cheiro e seu som que é como música, não se afeta fácil e não tem aquele orgulho venenoso que prefere a morte ao invés de assumir os próprios atos.
O jardim começa a ficar belo com a chegada de uma nova primavera... O jardim floresce aos poucos, como deve ser, mas a semente já conhece a flor e, com essa visão privilegiada, sua ambição de ser maior está ampliada.
O coração tem a cor mais vermelha, o sangue que vibra e grita pelo afeto. O ar está leve e a noite não está mais tão longa, embora seja tragável com o deleite do sono mais gostoso.

Sim! Minha alma hoje vai dormir tranquila, porque a primavera veio trazendo as flores mais belas e acordando a minha essência!

Estou pronto novamente!!



Oswaldo Juliano Sandi

domingo, 25 de janeiro de 2015

CONTRA A CORRENTE


26 de janeiro de 2015, sinto minha lágrima escorrer entre um soluço e outro e repousar tranquila no travesseiro. Silêncio em toda a casa. A geladeira faz aquele zunido costumeiro e o computador ainda está ligado... Acabamos de nos despedir... Não foi nada como o esperado, não foi nada poético ou como num filme... Foi do mesmo jeito que começou, foi virtual e sem sentido.
"Não espero mais nada, saio disso arrasado" — lembro quando disse isso, meu coração ardia de tristeza, porque quando a gente abre os braços, expõe o coração e é aí que mora o perigo.
Saio disso arrasado, porque foi tudo exatamente como eu temia. Depois de um belo sonho, é como se eu acordasse aos prantos, saltando na cama, no meio de algo que virou um pesadelo. E acordar agora nem é tão bom assim...
Grito pras paredes que poderia dar certo, que eu faria dar certo, que a distância não existe, como não existiu há muito tempo, quando conheci o que era a verdadeira felicidade... Mas não adianta que eu faça qualquer coisa, não adianta eu gritar, implorar, não adianta mais nada... porque o mundo não é mais o mesmo, a inocência já foi embora há muito tempo e, pior, faltam algumas horas e você estará tão distante fisicamente como seu coração já estava.
Infelizmente, esse é um livro que já estava escrito. Num jogo de imagens, tudo já estava escolhido e decretado em sua mente. Não há conto de fadas, não há desejo que possa ser realizado. Existe apenas a realidade e sua teimosia em levar adiante o que é pra ser como planejado...
De tudo que ficou, cá estou, indo contra a corrente mais uma vez, tentando botar a perder todo o planejamento do destino.
De tudo que ficou, eu fiquei sozinho mais uma vez, tentando entender qual erro cometi pra que tudo fosse tão rapidamente perdido...
De tudo que ficou, cá estou, deitado de olhos abertos e sem enxergar nada, porque esse rio que eu tento nadar contra agora tem uma forte corrente de lágrimas...

"De tudo que ficou, guardo um retrato teu e a saudade mais bonita..."




Oswaldo Juliano Sandi

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

POLARIZADOS

Não pode haver tanta precariedade num mundo assim. É sinal da amargura de quem o fez se eu tenho que contar com o mínimo de alegria os minutos do agora, esperando pela tristeza do depois. 
Cada dia que passa te vejo mais perto do sol e eu da lua, porque é no seu 'boa noite' que meus devaneios começam de verdade. Passo os dias tentando agradar e expor meus melhores cenários, mas a realidade é que não importa, vai sempre haver um crepúsculo pra separar a gente...
Você me diz que tem medo, imagine o medo de quem fica, imagine o medo daqueles que já praticamente encerraram a sua jornada, imagine a dor de olhar na cara do amor e sussurrar: "você tem tanta juventude pela frente". É um sorriso amargo e um coração dilacerado. É uma dor constante quando os trilhos são diferentes e você pode oferecer bem pouco aos olhos do outro...
Quem me dera repousar contigo no alto da nossa montanha... quem me dera que tudo fosse tão simples quanto a coincidência de nossas respostas... vem! Vamos voltar para aquele momento, apagar os faróis, acender as estrelas e ficar no mínimo uns dez anos no meu mundo! Vem! Vamos comigo destruir diários e decidir que ninguém vai optar por casar ou ter filho, viajar ou ter casa, morar aqui ou ali, até que tudo isso aconteça enquanto nossas vidas corram juntas... vem, sussurra no meu ouvido que meu espírito não está assim tão velho quanto sinto agora nesse momento... sussurra pra mim que a sua juventude não traz consigo um sentimento inconsequente de que eu tanto tenho medo... sussurra... sussurra apenas que você pelo menos desconfia de que esse é o momento e a hora certa pra gente pisar o mesmo chão e planejar o mapa de todo um continente. Mas não, jamais grite pra mim de tão longe que você está com medo, porque eu estou aqui com esse olhar vazio de quem está segurando o enjoo que esse mesmo medo que você sente traz e emudece a minha garganta...




Quando Você Voltar
Legião Urbana


Vai, se você precisa ir
Não quero mais brigar esta noite
Nossas acusações infantis
E palavras mordazes que machucam tanto
Não vão levar a nada, como sempre
Vai, clareia um pouco a cabeça
Já que você não quer conversar.
Já brigamos tanto
Mas não vale a pena
Vou ficar aqui, com um bom livro ou com a TV
Sei que existe alguma coisa incomodando você
Meu amor, cuidado na estrada
E quando você voltar
Tranque o portão
Feche as janelas
Apague a luz
e saiba que te amo...


Oswaldo Juliano Sandi

domingo, 11 de janeiro de 2015

ENCOMENDA

Até parece que a gente mudou tanto assim... mas não mudou... No fundo, no fundo, continuamos os mesmos garotinhos ingênuos e cheios de fé. Bem, pelo menos é desta forma que eu continuo vendo. A gente se encontra, a gente lança os dados, a gente confia na sorte, pra esquecer que no fim não há sorte, há motivos... Tenho apostado bastante nessa sorte ultimamente. Essa sorte de conhecer alguém e esperar pelo melhor e, bem, vieram muitas pessoas legais em contextos complicadíssimos e outras nem tão legais. Será que a gente uma hora vai ter que 'dar um desconto' pra determinados contextos pra não terminar sozinho? Isso eu ainda não sei, mas continuo tentando...
Foi bem assim: um papinho rápido que eu julguei bastante frio, monossilábico e sem futuro, mas aconteceu. Bolei um plano pra ter liberdade e saí. Quando topamos em frente à lagoa, fiquei entorpecido pelo seu hálito... e pela sua pessoa extravagante de simplicidade.
Tudo bem, é uma história longa, ou melhor, são várias histórias longas intercaladas e muito suor... Transpiração pra conversar e pra relembrar, pra viver o que foi vivido e pra sair do sofrimento sentido. Mas passou. Agora estamos apenas contando o que houve nas nossas vidas e passando um pouco de calor. E que vidas movimentadas! Quando eu era pequeno eu nunca ia contar sequer uma dessas histórias confusas que contamos entre uma cerveja e outra. Quando o lugar fechou, as histórias acabaram. Foi só aquela sensação: 'e agora?' Não sei bem lidar com situações assim e foi preciso pesquisar. No fundo, no fundo, eu também sabia desde o começo que você preferia a montanha.
Bem, subimos nossa montanha um pouquinho embriagados — eu estava tentando disfarçar, porque sou fraco pra bebida — e foi aí que tudo aconteceu muito rápido, num flash meio doido que só acontece num acidente de trânsito e aí fiquei me perguntando quando aconteceu esse momento em que me esbarrei com o acaso e ele derrubou essa encomenda. Uma encomenda muito bonitinha, por sinal, toda arrumadinha e cheia de umas manias que dão vontade morder... É claro que fica aquela sensação de estar pegando algo que não é seu, mas é normal, é o acaso pedindo devolução logo no dia seguinte, num revés da lei da compensação...
No fim de tudo isso, lá estava eu, cabeça pendida pra trás, relembrando que de noite dá pra ver algumas nuvens. Mas as estrelas brilham bastante também. E foi olhando as estrelas, conhecendo seu rosto com as mãos, que eu me perguntei de novo, como sempre faço quando sinto vontade dar um pause na vida: "e aí, sorte, estamos aí, ok?"
Não dá pra definir o que virá, se vão inventar um outro aplicativo que vai lhe entregar a combinação perfeita, só sei que sou capaz de supor que dá pra viver bastante coisa boa com uma pessoa com a qual o acaso nos presenteia. É claro que existe aquele medo constante de tudo desabar como qualquer coisa vem desabando, e desanima só de pensar que vão desabar quantos edifícios forem necessários até que aconteça uma estrutura de verdade que mantenha tudo de pé como a gente sonha...

Alea jacta est...



Oswaldo Juliano Sandi

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

INSIGNIFICANTE

Depois que se passa de certa idade, os textos vão ficando mais curtos e os assuntos vão ficando práticos. Nem precisa tantos anos pra te deixar assim, precisa só de experiência e isso não é só o tempo quem traz.
Os caminhos ficam menos cansativos e a expectativa já não é mais tão alta.
Se você veio, se deixou de vir, se fui até você ou se me perdi no caminho... não importa...
Importa apenas que cada passo que dou, conhecendo gente como você, indo até o seu meio, é apenas um passo quase perdido — não seria de todo perdido se não fosse pela experiência que ganho...
Eu só queria dizer que eu não esperava mesmo muito de você. Eu só esperava o mesmo de sempre: uma tentativa perdida de acreditar no conto de fadas que a gente não se cansa de se contar. É claro que acreditei. É natural de qualquer pessoa acreditar no que quer pra si.
Caí como um patinho de início, mesmo me repetindo a cada dia qual o seu perfil: o perfil pseudo indie sociável e fotográfico, se é que me entende.
Mas não importa... O que importa agora é que estou curado. E que passou rápido até demais e não há nenhuma dor perceptível.
O fato mais patético é que eu ainda vou cair algumas outras vezes em historinhas como as suas, muito mal contadas, por sinal... e depois vou ficar aqui recordando o quanto é cansativo começar coisas sem futuro.
A única coisinha que me incomoda, e que é preciso escrever aqui pra exorcizar da minha cabeça, é o fato de você ter contribuído um pouco mais pra diminuir a fé que tenho em qualquer ser humano, por menos mentiroso que seja.
Você foi quase insignificante.






Oswaldo Juliano Sandi

terça-feira, 23 de abril de 2013

MUITO ABRAÇO PRA POUCO DESTINO...


"Há campeões de tudo, inclusive de perda de campeonatos."
(Carlos Drummond de Andrade)




Talvez a vida seja bem isso mesmo... Me vejo correndo e perco o fôlego. Levo uma, duas semanas pra me recuperar. Me levanto e corro. E caio de novo.
Triste é o fim daqueles que jogam com todas as cartas e sem medo. Um coração quebrado, uma noite vazia ouvindo Brandi Carlile. Deve mesmo existir essa compensação, só pode — pra um final de semana extremamente feliz, descontroladamente feliz, uma tragédia dentro de um peito machucado.
Tem a distância, tem o tempo errado, tem toda uma luta em vão. De que adianta então todo esse esforço pra se ter um abraço apertado, se no final, abraços e mais abraços são jogados fora.
De repente, eu tô calejado. De repente, eu tô cansado de dar tudo de mim pra nada. De repente, mais um machucado. Uma ferida a mais aberta, exposta, sangrando de novo.
Será que eu não sou capaz de aprender a deixar isso tudo pra lá? Será que não dá pra ser feliz de outra forma que não esta?
Meu coração outra vez tá partido. Meus dedos, ansiosos, correm as teclas, mas não há mais nenhuma palavra pra falar disso tudo. Será uma aura negativa? Uma maldição antiga, alguma coisa assim?
Só não sei se ainda dá pra ter essa vida propensa a cair mil vezes, porque meu coração é sensível sim, e por demais! E a cada queda, lá se vai mais um pedaço e a dor aumenta, e a cada passo, a cada dor, fico ainda mais desgastado, mais chorão, mais dolorido, mais pra baixo...
Mais desanimado...





Oswaldo Juliano Sandi

terça-feira, 2 de abril de 2013

SOBRE O PRIMEIRO ENCONTRO E SUA INEXISTÊNCIA

De todas as formas que eu tentei te imaginar,
nenhuma delas é esta que você usa cegamente,
sem medo de ferir ninguém.

***

Meus passos cuidadosos,
jamais desenfreados,
temem emitir qualquer ruído
que vença a distância e te acorde do teu sono.

***


É por motivo de tanta diferença que eu decido agora descrever o nosso inexistente primeiro encontro.


Seis meses não são uma vida. Seis meses é apenas tempo suficiente  para que um coração se apegue e outro pisoteie. Em seis meses podem existir encontros inúmeros e, igualmente, rompimentos dolorosos e cicatrizes para carregar por uma vida.

Um encontro foi marcado.
Como menino, pensei cada detalhe, preparei a roupa, comprei roupa, comprei doces, comi doces, chocolates que trouxessem qualquer ar de felicidade e alegria. Pensei falas, pensei monólogos infinitos de comédia e, quem sabe, drama.
Viajei a mesma distância que você viajaria para chegar até mim — mas recusou. Corri por caminhos cansativos, sorrindo, as pernas arranhadas por espinhos... sorrindo...
Viajei com o coração a mil, tomando remédios pra dormir e chegar descansado...
Você não preparou meu pouso, só me acompanhou a caminho. Você me deixou ali para dormir o sono que eu não queria dormir. Eu queria era viver. Porque paguei todos os preços e cifras, mesmo os incalculáveis. Queria dormir em ônibus lotados e viver em ruas desconhecidas. Viver meu amor talvez repassado em falas, cenas e músicas — infinitamente...
Quando a noite veio, sobrei no seu atraso, participei como um prato só na mesa, mesmo estando acompanhado. O olhar vago, ouvi de outros as histórias que preferia ouvir de você, conheci por outros os caminhos que você trilhou e me contou com toda luz, mesmo que tenha trilhado a todos na escuridão, como descobri naquele momento amargo. Conheci o seu outro lado e, nos caminhos por que passamos durante nosso encontro, te admirei, solitário, com meu olhar aflito, querendo retribuição. Você jamais sentiria a solidão imensa que eu sentia... Você estava acompanhado e eu, sozinho. Acompanhar a amizade dos outros é vislumbrar a solidão que tem dentro da gente... Chorei calado por todas aquelas horas, porque finalmente paguei o preço amargo que é o que se paga pra ser rejeitado, ser deixado de lado — se entristecer e, ao mesmo tempo, se sentir culpado por estar triste.
Depois disso corri. Fugi da tolerância que desconstrói o que eu construo diariamente com cada grão minúsculo das minhas forças. Fugi de medo. De ver desabando todos os meus castelinhos de areia que você talvez enxergue com desprezo — e mesmo assim são meus.
Corri com lágrimas nos olhos e relutando pra voltar.
E sucumbi.
Voltei atrás. Corri atrás. Fui ao seu encontro, sem bateria no celular, com o coração em pedaços... Sem energia pra pedir sequer um perdão. Mas mesmo assim, tirei energia de onde não tinha, coloquei estes seis meses numa máquina e espremi, escorri um sumo amargo e bebi pra ter força. Pra tentar. Pra ser o adulto que eu achei que você queria. Fui atrás de você com o coração exposto do lado de fora do peito, e você cravou suas mãos nele — com prazer e sem armas — dilacerando uma vez... duas vezes...
Voltei pro hotel sangrando. Sentindo a dor pressionar meus olhos, meu corpo, minha dignidade, meu orgulho que eu jamais entreguei a ninguém senão você mesmo... a troco de NADA.
E pior, ainda voltei atrás muitas vezes depois. Sem coração dentro do peito, oferecendo migalhas de mim que eu é que deveria estar catando pelo chão. Ajuntando em um balde pra reconstruir aos poucos o que se quebra em momentos curtos de tempo.




Colóquio:
— Eu deveria fazer algo... Mandar algum email, alguma mensagem solicitando por favor, que me recuse com todas as letras. Me dizendo pra ir embora...
Ela: Mas já não é o bastante? Que demonstração maior você quer pra seguir em frente? Depois de tudo, você ainda acha necessário ter isso em palavras?
Na minha ingenuidade, respondo:
— Mas eu sou feito de palavras... eu preciso delas...



Oswaldo Juliano Sandi

domingo, 31 de março de 2013

SOBRE A EFÊMERA PRESENÇA DO AMOR...




Quando eu menos esperava, você apareceu. Criou toda uma aura propícia para seu aparecimento e saltou bem na minha frente... Meu coração há muito já tinha desaprendido qualquer coisa sobre o amor e os seus caminhos.
É claro, qualquer idiota se entregaria rápido, porque a vida muda quando se está amando — não é mesmo o que dizem?
Não foi diferente. Uma presença, que não a sua, começou a iluminar os meus dias com uma luz assombrosa. Era o amor! Sorrisos nos corredores, bebedeiras sem ressaca, mensagens de celular, carinho que se distribui de graça... E assim, a ideia de distância foi sufocada pela presença desse sentimento ora tão bonito.
A efêmera presença do amor passou a fazer parte dos meus dias e durou tanto, me fez tão feliz, que eu passei mesmo a acreditar que efêmero poderia ser algo que durasse o bastante. Que me acalentasse em todos os meus sonhos de felicidade e afeto.
Segurei na mão daquela presença e fui sem medo, porque todo aquele tempo ao meu lado me inspirou confiança. Eu queria pagar qualquer preço pra chegar no auge de tudo e gritar que venci e consegui retomar pra mim o amor perdido há tempo.

Eu fui. Saltei de alturas nunca imaginadas.
Eu busquei! Disse coisas que jamais diria em sã consciência.
Viajei os caminhos da distância, porque pensei que se houvesse qualquer obstáculo seria apenas esse — um obstáculo geográfico...

Pobre de mim!

Um dia apenas, logo depois do tiro no escuro — porque na realidade eu estava cego, mesmo que acreditasse nessa luz enganosa do amor que vivia somente comigo — sim, um dia apenas e aquela efêmera presença tinha partido.

Lágrimas, solidão, pesadelo cruel que se paga cegamente, por dias a fio...

Jamais acreditaria que terminaríamos assim... E que os símbolos que trocamos não significassem nada além de uma ilusão... No fim das contas não existe mesmo mais nada pra me segurar, porque a efêmera presença do amor é algo redundante e cá estou, sozinho... Solitário, desfrutando somente da minha presença, tentando me convencer de que realmente me valorizo e de que me amo acima de tudo...



Oswaldo Juliano Sandi

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

CORAÇÕES DE PAPEL

Corações de papel
Papéis rabiscados
Corações delirantes
Mundo ao contrário

Telas acesas
Sentimentos que fluem errados
Teclas que cantam
Uma canção desequilibrada...

Quase não te ouvi
E não toquei a sua face
Não sei exatamente como é sua pele
E mesmo assim estou perdido...

Ócio amaldiçoado,
Encontros marcados...
Desencontros talvez planejados
Mais um momento perdido...

Nas reticências do tempo,
Você esconde o que sente.
No meu imediatismo,
Te quero e te busco presente...

Não tenho necessidade alguma de pedir desculpas,
Eu fiz e participei no máximo que pude.
Não quero que se desculpe, tampouco, se li sua mensagem,
Meu caminho foi você quem estendeu na frente dos meus pés.
Porque é muito esforço pra nada - 
Corações de papel - 
Se na realidade, são apenas de papel e luzes negativas na tela
MAIS NADA...





Oswaldo Juliano Sandi